Mas afinal, o que é o "Bem" e o que é o "Mal"? Em que consistem? Como se caracterizam? Faz sentido pensar neles como forças atuantes independentes? De onde eles vêm?
Perguntas difícieis. Não sei como respondê-las, pois implicaria na codificação explícita de insights pessoais. E no processo de conversão, dados seriam perdidos (nem tudo pode ser codificado), haveria perda de informação, e a idéia seria distorcida. Mas podemos levantar algumas visões sobre o assunto. As denominações são inventadas por mim, e de minha inteira responsabilidade (se alguém não gostou, encaminhe a minha excomunhão, me condene ao mármore do inferno ou simplesmente queixe-se para a mãe do bispo).
- Visão Bifocal: é a visão mais adotada desde bastante tempo (e a mais vulnerável a perguntas difíceis). Nesta visão, Bem e Mal são referenciais eternos, imutáveis e absolutos. Ainda, tanto o bem quanto o mal emergiriam de entidades por eles responsáveis (no caso, Deus e o Demônio). É uma visão "binária", digamos, onde cada coisa é boa ou má, ostenta o bem ou mal inequivocamente. Na verdade, o nome disso é Maniqueísmo. Um dia foi meramente um modo de pensar, mas, atualmente, é o modo de pensar da maioria.
- Visão Monofocal: visão que já teve seus tempos na corrente filsófica denominada Neoplatonismo. Em linhas gerais, advoga a existênca apenas do Bem absoluto, eterno e imutável. O Mal, como força ativa e atuante, não existiria. As ações más seriam motivadas, assim, por uma "falta de bem", não exatamente pela ação de uma força maligna. Sendo um pouco abstratista, poder-se-ia definir um coeficiente de bem, onde teríamos Cb = infinito para Deus (o referencial eterno e imutável de bem absoluto) e valores maiores ou iguais a zero para pessoas comuns, sendo zero uma pessoa "sem bem". (Poderíamos ver o Mal maniqueísta como um Cb menor que zero, sendo o "Demônio" com Cb = -infinito).
- Relativismo: nesta visão, não há referenciais absolutos nem de bem nem de mal. Ambas as noções são consideradas em relação ao contexto de uma ação, considerando elementos culturais, sociológicos, filosóficos (e outros tipos de filigranas acadêmicas inventadas por mentes mofadas e desocupadas). Uma ação considerada boa (ou má) em um dado contexto, pode ter uma interpretação diferente em outro contexto. Ou ainda, uma ação boa (ou má) em um contexto em uma dada cultura pode ser considerada de maneira diferente, no mesmo contexto, para outra cultura.
No relativismo, as coisas simplesmente são, sem a presença de forças motrizes (benéficas ou maléficas por trás dos eventos).
Tomando estes enfoques por base, teríamos que, no primeiro, seríamos impulsionados por forças externas (ou escolheríamos como partido alguma delas) e no segundo, haveria uma força, à qual atenderíamos ou não. E no terceiro caso?
Antes de comentar o terceiro caso, é necessário abrir um parêntese. A existência de "forças do bem" e "forças do mal", num sentido puramente filosófico, é uma mera invenção para justificar ações. Dado um conjunto de exemplares de ações, foram criados estes gabaritos para acomodar, da melhor maneira possível, o conjunto de suas possibilidades. Mas ela não consegue abarcar o relativismo.
Fechando o parêntese, proponho uma objetivo primordial, gue não apenas guiaria as ações no relativismo, mas serviria de compreensão dos outros enfoques.
O Payoff
Advogo a tese de que TODAS as ações humanas sejam guiadas por alguma forma de retribuição (payoff). Comemos porque queremos saciar nossa fome, dormimos porque temos sono. Fazemos sexo porque temos vontade ou queremos ter filhos. Seja o que for, todas as ações envolvem alguma forma de payoff, direto ou indireto, concreto ou abstrato.
É mais ou menos fácil compreender isso para ações cotidianas, mas a discussão começa a ficar complicada quando abordamos questões como crimes e hediondades. Um traficante não vende drogas porque quer arruinar a juventude. Ele vende porque quer dinheiro, simples assim. Da mesma forma um matador de aluguel: ele não mata porque é um sujeito "mau" (embora alguns extraiam alguma forma deturpada de bem-estar do processo, podendo ser considerados "maus" pela maioria), ele mata porque quer dinheiro. Psicopatas, estupradores e um vasto array de personalidades consideradas más, ou mesmo diabólicas, não fazem suas ignomínias em função de serem "maus". O mal não se auto-justifica. Se eles assim procedem, o fazem porque dali extraem alguma forma de bem-estar (deturpado, na minha opinião - bem como na da maioria das pessoas).
E o bem? Você pode fazer o bem, mas o que o move? O payoff. Você pode fazer o bem a fim de ser reconhecido como uma pessoa boa. Não será um bem genuíno e desinteressado (dane-se, ajudando alguém é o que vale). Em última análise, você não se importa nem um pouco com o alvo de seu bem, já que seu objetivo é você mesmo. Entretanto, você pode ser uma pessoa altruísta, e fazer o "bem", pensando na outra pessoa. Ver o bem de outra pessoa o faz sentir-se bem, o que qualifica você como um altruísta, certo?
Errado.
Se você faz as coisas pelo fato de que "se sente bem em ver outras pessoas bem", então não o faz exatamente por elas, o faz pelo seu próprio bem-estar. E isso é uma forma de payoff, em última análise.
Uma Última Chance para o Altruísmo
Mas o altruísmo verdadeiro não existe? Bem... pode existir como um contruto teórico (que não serve para nada, senão empoierar em alguma estante de porão). Vamos supor alguém que faça uma boa ação, mas que, ao mesmo tempo, não lucre nada com ela, não se importe nem um pouco com o alvo de seu bem, e não se sinta bem com a boa ação que fez. Essa seria uma legítima ação sem payoff. A questão é: alguém seria capaz disso?
Não esqueçam de usar seus neurônios!!
