domingo, 25 de março de 2012

Metaopinião

Muito se tem falado em liberdade e democracia nos últimos tempos. Liberdade de expressão, liberdade de opinião, liberdade de sabe-se-lá o que. Estranhamente, ao mesmo tempo, existe uma atmosfera opressiva, um tipo de "zeitgeist" (é a melhor palavra que define a situação), na contramão desta tão falada liberdade.

Por alguma razão, surgiu a noção de que todo mundo PRECISA ter opiniões sobre as coisas, pelo menos dos pontos mais comentados, dada a facilidade de expressão e disseminação de opiniões. A algumas pessoas, o inocente "não acho nada" soa como um herege desperdício de uma liberdade tão duramente conquistada. A impressão que fica é estranha, afinal, a liberdade de opinião deveria incluir, naturalmente, a liberdade de não ter opinião nenhuma.

Analisemos, rapidamente, a situação.

A necessidade, ou obrigação, de se ter uma opinião sobre o que quer que seja me faz lembrar de uma concepção bastante disseminada nas esquerdas da vida: a necessidade engajamento político pessoal e busca pelas ideologias ocultas atrás de tudo (até do limo sobre as pedras). Preconceito da minha parte? Óbvio, afinal, estou analisando o fenômeno a partir de uma idéia preconcebida que eu tenho sobre o modus operandi dos marxistas de plantão. Que seja, afinal, estou exercendo meu direito (ou dever?!) de ter uma opinião, e de expressá-la.

Antes de prosseguir, façamos uma nova digressão. Uma opinião é um construto um tanto complexo. Construí-la exige conhecimento daquilo sobre o qual vai-se emitir a opinião, bem como de contexto (social, político, econômico, histórico, cultural, ideológico) do objeto da opinião, bem como uma certa dose de conhecimento de mundo em geral. E perspectiva. Sem querer soar elitista ou pedante, é meio difícil crer que adolescentes que mal sabem onde estão as próprias meias (quando sabem...) tenham perspectiva para conseguirem dar uma opinião bem formada sobre algo mais que vídeo-game ou cores de esmalte.

Voltndo ao assunto...

Existem alguns efeitos associados. Quem tem olhos para ver, pode ver o nível de superficialidade nas notícias que são divulgadas nos meios eletrônicos (o alimento principal da nova geração de opinadores) e da baixa capacidade de interpretação de textos e de leitura profunda destes mesmos opinadores. Combinemos um texto raso com uma leitura mais rasa ainda e teremos a formação de uma noção distorcida. Tudo isso, junto a falta de elementos que balizem a construção de uma opinião bem-formada leva ao festival absurdos que vemos todos os dias na rede.

Poderia ter escolhido ficar sem dizer nada. Mas, nesta matéria em específico, apontar o estado doentio de coisas e expressar opiniões acerca, é mais que um direito. É um dever.

Não deixem de usar seus neurônios!!