Volta e meia nos vemos frente à contingência de descartarmos
coisas. Nesta situação, alguns de nós são assaltados por aquele pensamento:
“isto pode ter alguma utilidade” frente a alguma coisa vencida e esquecida no
fundo de algum armário ou caixa. Simplismos à parte, o que fazer com coisas que
pertencem a uma vida à qual não mais pertencemos? Nunca vi falar de cadáveres
voltando para buscar seus velhos sapatos e chapéus.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Herança
Mais um Dia
Ouve-se falar, volta e meia, sobre políticas públicas (ou da
falta delas) para recuperação de viciados em entorpecentes. Fala-se
um bocado sobre falta de instalações, de leitos de hospital, de profissionais,
de dinheiro, enfim, toda uma fauna de problemas. Ao mesmo tempo, ouve-se falar
do alto índice de recaídas, de pessoas desintoxicadas e tratadas que voltam ao
vício.
Conforme os entendidos na matéria, o problema do vício em
drogas não é apenas uma questão da droga em si, de seu efeito bioquímico, mas
também do que leva uma pessoa à droga (a bem da verdade, nem precisa ser uma
droga, propriamente dita, pode ser comida também), ou a ela a faça retornar. Um
elemento notavelmente comum aos viciados é a falta (real ou percebida) de
perspectivas ou de significado na vida. A que retornaria um morador de rua
desempregado ao sair da reabilitação? A uma calçada, ao lixo, à indiferença do
vulgo, ao barulho dos carros e a um
enorme nada.
Mas a falta de perspectiva não é um atributo exclusivo da
miséria e da exclusão. A riqueza e a fartura, per se, não trazem significado à
vida de ninguém (embora proporcionem graus de liberdade que a miséria
restringe). Além do mais, o esforço de se manter dentro das expectativas e
aparências demandadas por certos estratos sociais podem, certamente, nublar a
perspectiva que uma pessoa tem a respeito de si e de sua vida.
Tanto no caso do abastado, quanto no do miserável, a dita
“vida real” é percebida como indigesta, um lugar para onde, racionalmente, até
poderiam querer voltar, mas de onde suas emoções os dizem para fugir. E há
muitas rotas de fuga...
Governos e instituições podem comprar medicamentos, pagar
médicos, internar pessoas, enfim, mas não podem dar (ou devolver ou substituir)
uma vida a ninguém. Podem impor uma, que mais cedo ou mais tarde será
rejeitada.
Conforme os especialistas, e os próprios pacientes em
recuperação, a maior parte do esforço para sair do vício deve ser feita pelo
paciente. Um esforço que não passa só pelo resistir mais um dia àquela vontade
maldita, mas também pela construção de um destino para sua vida, de algo que o
faça querer viver mais um dia.
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