quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Herança



Volta e meia nos vemos frente à contingência de descartarmos coisas. Nesta situação, alguns de nós são assaltados por aquele pensamento: “isto pode ter alguma utilidade” frente a alguma coisa vencida e esquecida no fundo de algum armário ou caixa. Simplismos à parte, o que fazer com coisas que pertencem a uma vida à qual não mais pertencemos? Nunca vi falar de cadáveres voltando para buscar seus velhos sapatos e chapéus.

Verdade seja dita, morremos várias vezes ao longo da vida, e os inconscientemente avaros se tornam ciumentos depositários de pertences de defuntos sucessivos de si mesmo. De fato, algumas podem até ter utilidade, mas outras, por mais aspecto de novas e frescas que apresentem, são pertences de um morto e devem ser tratadas como tal. A própria Natureza, criadora e destruidora, não possui pejos de se desfazer do que quer que seja. Por que nós, lampejos passageiros, deveríamos te-lo?

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