Chego
à conclusão de que a existência do maloqueiro é de fundamental importância para
o funcionamento da sociedade urbana moderna brasileira. Da mesma forma que o
demônio, que presta um invulgar serviço às religiões majoritárias, o maloqueiro
é o culpado útil perfeito; aquele a quem podemos imputar a responsabilidade
pelas mazelas da cidade e dormir sossegados. Podemos despejar lixo em qualquer
lugar, e sabemos que a culpa vai ser do maloqueiro. Podemos ser completamente
desleixados com banheiros públicos, e sabemos quem é o culpado. Podemos abrir
embalagens e consumir produtos no supermercado, e sempre haverá um suspeito
mais suspeito que nós. Mais ainda, nos momentos de raiva, especialmente quando
a cidade está uma droga por tudo aquilo que nós imputamos aos maloqueiros,
podemos purgar nossas raivas e frustrações ao reclamar, xingar e protestar
contra os maloqueiros; exigir atitudes das autoridades e cogitar, com a
indignação dos justos, a erradicação dos maloqueiros.
Mas
este seria o nosso pior pesadelo. Não o queremos. Odiamos, desprezamos e
abominamos os maloqueiros, mas queremos que eles fiquem conosco, ao nosso
redor. Sem eles, perderíamos nossos bodes expiatórios preferidos, e seríamos
abandonados às conseqüências de nossa própria hipocrisia preguiçosa. Teríamos
que responder pelos nossos atos e olhar para eles. Teríamos que encarar o duro
fato de que nós, a maioria de nós, pelo menos, somos tão maloqueiros quanto
eles. E que nos odiamos e desprezamos por isso, mas não teríamos onde despejar
estes sentimentos.

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