Deve ter começado sem intenção nenhuma, afinal, quem ligaria
para restos de frutas jogados em um canto qualquer? No entanto, alguns devem
ter percebido que ali surgiram plantinhas novas. E mesmo estes que perceberam
não devem ter ligado um fato ao outro. Até que um dia, alguém se perguntou
“será que...?” e jogou os restos de fruta em um outro lugar e esperou para ver
o que acontecia... e cresceu um pé de fruta. De maneira análoga, aqueles com
mais percepção e mais curiosidade devem ter notado que algumas pedras, quando
batiam umas nas outras, geravam faíscas, que por sua vez, poderiam criar o tão
bem-quisto fogo, o pedacinho de sol que afugenta o escuro da noite. Este mesmo
fogo, quando por sobre umas pedrinhas alaranjadas, fazia-as soltar umas gotas
prateadas, que não eram água.
E assim, entre acidentes, curiosidades, observações e alguma
reflexão, o ser humano foi descobrindo que havia uma lógica pór trás da
Natureza. As coisas não eram aleatórias, ou arbitrárias, mas sim, seguiam um
conjunto de regras coerente. Ao observar a natureza, era possível obter um
vislumbre destas regras; ao interagir com ela, este vislumbre se tornava mais
nítido. E quanto mais compreensão sobre as regras subjacentes da natureza, a
interação era cada vez mais profunda. Mas para isto, era necessário pessoas com
Visão, aquelas que percebiam algo onde outros não percebiam nada. Que ousavam
dar um passoa adiante, e fazer algo só para ver o que acontecia. E assim,
tímida e meio sem jeito, nasciam os rudimentos daquilo que viria a ser
conhecido como Ciência.
Tanto a Magia quanto a Ciência, em seus momentos iniciais,
devem ter sido improvisadas, espontâneas e não-sistemáticas; frutos mais da
perseguição de vislumbres do que de esforço concentrado. O transcorrer das eras
e o aprendizado de uma geração com a outra foram, no entanto, refinando e
solidificando significados e estabelecendo práticas e métodos. Cumpre notar
que, até um momento relativamente recente na história, aqueles que faziam magia
também faziam ciência, e vice-versa. Não vou entrar no mérito de como elas se
separaram – não agora – mas o fato é que, hoje, pelo menos para um olhar mais
apressado, magia e ciência são caminhos divergentes, mesmo antagônicos.
Da mesma forma que as serpentes no caduceu, magia e ciência
revolvem ao redor do mesmo eixo e, por mais que sigam caminhos distintos, se
encontram e se tocam em vários pontos. Com o tempo, veremos o que estas
serpentes têm em comum, o que têm de diferente, o que podemos aprender de uma a
partir do que sabemos sobre a outra.

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